Ciência | A Pública | 13/03/2018 09h19

Estudo traça perfil dos internautas no que diz respeito ao engajamento político

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A agência de jornalismo investigativo Agência Pública, em parceria com alunos da ESPM-Rio e da USP, organizou um levantamento estatístico que considerou 1.822 perfis de Facebook e diversas páginas de notícias para traçar o perfil dos leitores e seus respectivos engajamentos políticos.

O estudo partiu da premissa que veículos de mídia que funcionam dentro da rede social tendem a ter um viés político mais explícito, seja para a direita ou para a esquerda. Os veículos de notícias mais tradicionais tendem a primar pela imparcialidade de engajamento, com enfoque na informação que está sendo passada, apesar de não serem imunes à polarização. Também foi considerado que o ato de curtir um conteúdo significa que o leitor concordou com o teor da notícia apresentada.

Metodologia de pesquisa

Usando a API do Facebook, o grupo de estudos analisou as identificações de usuários da rede social que interagiram com publicações de páginas de sites relevantes de notícias por meio do mecanismo "curtir".

As páginas levadas em consideração nos levantamentos sobre a imprensa tradicional foram as da Veja, Folha de S.Paulo, G1, UOL Notícias, O Globo, Estadão, IstoÉ, Exame, Época e Carta Capital. Os sites de esquerda analisados foram Jornal GGN, Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, Falando Verdades, O Cafezinho, Brasil 247 e Mídia Ninja. Os sites de direita, por sua vez, foram Jornalivre, Papo TV, Folha Política, Partido Anti-PT e Anti-PT.

Quanto à coleta de dados do estudo, um de seus autores explicou: "Optamos por uma abordagem um pouco heterodoxa, mas ainda assim útil: quando havia declaração pública de idade, usamos essa informação; quando o perfil não revelava a idade, mas disponibilizava o ano de formação no ensino médio, estimamos o nascimento pelo ano de conclusão do ensino médio menos 18 anos; por fim, quando não tínhamos nenhuma dessas informações, estimamos a idade em faixas de dez anos avaliando a foto do perfil. O método é um pouco impreciso, mas, dado o forte contraste dos resultados nos três grupos investigados, achamos que indicam uma tendência real".

Conclusões não esperadas

Quanto à idade dos internautas que interagiram com notícias durante o estudo, um terço do público da grande imprensa se concentra na faixa dos 21 a 30 anos de idade. Em páginas com viés político de direita, a faixa etária mais proeminente foi de 41 a 50 anos, com 30% dos acessos. Já nas páginas alinhadas à esquerda, o perfil de leitores com mais de 60 anos apareceu com 23,2% dos acessos. Os usuários que interagiram com outras páginas de notícias em geral têm um perfil mais jovem, com mais da metade dos leitores estando abaixo dos 30 anos. Infere-se dos dados que a população com até 30 anos prefere não consumir notícias vindas de páginas engajadas explicitamente na política, mas interagem bem com a grande imprensa.

Os resultados foram bastante surpreendentes, segundo o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da USP. Segundo o relatório por eles emitido, "Os dados são tão contraintuitivos que hesitamos em publicá-los, sobretudo em face das dificuldades metodológicas. No entanto, quando comparamos nossos números com os dados internos de dois grandes sites, um da grande imprensa e outro da esquerda, nos convencemos de que os resultados são consistentes".

Quando a variável observada foi a escolaridade dos leitores, 75,8% dos internautas que recorrem à grande imprensa possuem graduação completa, enquanto que 67,7% dos leitores de páginas de direita e 74,1% dos leitores de páginas de esquerda possuem ensino superior. A média de leitores com nível superior das páginas da grande imprensa, direita e esquerda é bastante superior à da internet em geral, que fica em torno dos 13,1%. Tal diferença pode estar associada à idade dos leitores, dada a preferência dos mais jovens por outros veículos de mídia.

O professor Pablo Ortellado, coordenador do Gpopai, afirma: “Se pegarmos as principais páginas que discutem política no Facebook, elas alcançam 12 milhões de perfis, dentre os 100 milhões de usuários do Facebook no Brasil”.

Uma pequena amostra do total, mas que é bastante atuante. “Não é exatamente uma novidade que tenhamos ‘jornalismo de combate’. O que temos de novo é a combinação de uso de mídias sociais com polarização da sociedade. O problema não é que tenhamos sites engajados, mas que tenhamos uma sociedade tão polarizada que ela só difunde informação de combate. Com isso, temos um rebaixamento muito acentuado da qualidade da informação que circula, já que as mídias sociais já são a segunda fonte de informação dos brasileiros, depois da TV”, analisou o professor.

Antes e depois do PT

A polarização, segundo os estudiosos, parece ter uma ligação íntima com a chegada do PT ao poder. O evento parece ter sido um divisor de águas para os militantes políticos, especialmente os que se encontram com mais de 30 anos de idade.

Em questionários aplicados em passeatas em 2016 e 2017, pesquisadores do Gpopai relacionaram que assim como a crença em rumores parecia crescer com o avançar da idade dos manifestantes, também cresciam as suas autoidentificações como petistas ou antipetistas. Mais do que direita ou esquerda, essa polarização parece dividir quem apoia e quem condena o Partido dos Trabalhadores.

“Se a gente olhar para a realidade brasileira, parece que a polarização tem a ver com o PT. Para quem tem mais de 40 anos e viu o PT nascer, é bem provável que ele tenha sido uma fonte de esperança. Neste grupo, há os que estão satisfeitos com as conquistas e os que estão extremamente frustrados com a sua degeneração e limitações. Essa me parece a explicação mais razoável, já que o PT estrutura a polarização", pormenorizou Ortellado.

As notícias falsas

Segundo a First Draft News, da Universidade de Harvard, a polarização política contribui para a rapidez da propagação de notícias falsas.

“As notícias falsas são um dos efeitos de um problema maior que é a polarização política da sociedade. Com uma sociedade polarizada, todo ecossistema de informação é pressionado a atender esse sentimento beligerante da sociedade, rebaixando o padrão editorial, já que matérias que se prestam mais à guerra de informação têm um desempenho melhor. Por isso, vemos essa profusão não apenas de notícias falsas, mas também de outras formas de desinformação.”, analisou o professor Ortellado, se referindo às sete categorias que povoam o espectro das notícias falsas.

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